De quando em quando, o país acorda com uma nova querela moral. E lá vamos nós, ordeiros devotos da ideologia, a afinar a consciência segundo o tom do partido que abraçamos. Já ninguém pensa: alinham-se argumentos como se fossem bandeirinhas de campanha. A liberdade, aquela velha senhora que todos têm na boca, há muito que deixou de ser um princípio. É apenas uma farda que se veste conforme o lado da trincheira.
Ontem, por exemplo, proibiu-se a burca. E eis que o país se dividiu. Não entre defensores da liberdade e da opressão, mas entre fiéis da esquerda e fiéis da direita. É curioso como a liberdade de vestir ou despir parece depender sempre de quem apresenta o projeto de lei.
Se a proibição da burca viesse da esquerda, significaria luta pela libertação das mulheres, um hino civilizacional ao rosto descoberto.
Mas, como veio da direita, tornou-se de súbito um ato de opressão.
Eis o milagre ideológico: o mesmo tecido muda de significado conforme a cor do partido.
A política portuguesa converteu-se numa teologia. Já não há ideias, há dogmas. Já não há reflexão, há fé militante. O partido é o novo púlpito e cada comentário nas redes, uma homilia. O cidadão moderno não tem opinião — tem religião política. E como todo o bom crente, não duvida: cita, partilha, reza em caps lock.
O mais fascinante é que, no meio deste fervor, as mulheres — as verdadeiras interessadas — tornaram-se apenas pretexto. São o altar sobre o qual se sacrifica a coerência. Fala-se delas, por elas, mas nunca com elas.
A liberdade, coitada, serve de biombo — ou de véu — conforme a ocasião.
E assim seguimos, entre burcas e bandeiras, devotos de causas que mudam de cor ao sabor do vento partidário. O país, que mais parece um convento laico, reza o seu credo de sempre:
"Creio no meu partido todo-poderoso, criador da verdade e da moral. Creio nas suas posições e nas suas contradições, tanto ontem como amanhã."
E as mulheres? Continuam à espera que alguém, por um instante, as veja — sem véu, sem partido e sem teologia.
Luís Ochoa / Facebook