Minneapolis vive um clima de choque, exaustão e revolta após duas mortes de cidadãos norte-americanos às mãos de agentes federais de imigração em menos de um mês. Renee Nicole Good e de Alex Pretti foram abatidos a tiro elevando a crise que já envolvia as ações do ICE a um patamar diferente.
Já aqui tínhamos escrito sobre Renee Good. Hoje lembramos Alex Pretti, enfermeiro de cuidados intensivos de 37 anos e funcionário de um hospital de veteranos, foi morto a tiro por agentes do ICE a 24 de janeiro, enquanto filmava uma operação de imigração numa zona comercial da cidade.
Alex Pretti filmava, mas o que nos mostram os vídeos que fizeram dele?
Vídeos gravados por testemunhas mostram Pretti a orientar o trânsito, a alertar agentes para não empurrarem pessoas para a estrada e a interpor-se quando um agente atirou uma mulher ao chão. Não há imagens que o mostrem a atacar agentes ou a empunhar uma arma.
Importa lembrar que alguns governadores, advogados e ativistas pediram aos cidadãos que perante a impotência filmassem as ações do ICE para que, pelo menos, haja essas provas.
Perante isto que diz o governo?Altas figuras da administração Trump, incluindo a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, o diretor do FBI, Kash Patel, e o adjunto da Casa Branca Stephen Miller, descreveram publicamente Pretti como alguém que “atacou” agentes, “brandiu” uma arma, tentou “assassinar” forças federais ou planeou um “massacre”.
Nenhuma dessas alegações foi sustentada por provas conhecidas até ao momento. Pelo contrário, as imagens mostram que a arma estava oculta na cintura de Pretti e que foi retirada por um agente quando já se encontrava no chão, segundos antes de ser atingido por pelo menos dez disparos à queima-roupa.
Autoridades locais contradisseram diretamente a narrativa federal.O chefe da polícia de Minneapolis confirmou que Pretti tinha licença válida para porte de arma e que a lei do Minnesota não proíbe a presença armada em protestos pacíficos.
Grupos de defesa dos direitos das armas, inclusive a National Riffle Association (NRA), tradicionalmente alinhados com o Partido Republicano, acusaram a administração Trump de distorcer a lei e de criminalizar o exercício legítimo da Segunda Emenda, sublinhando a incoerência com a histórica oposição republicana a restrições ao porte de armas.
Contra o ICE nada?Perante a circulação massiva dos vídeos, membros da administração suavizaram parcialmente a linguagem nos dias seguintes, evitando repetir algumas das acusações mais extremas feitas inicialmente. Ainda assim, continuaram a defender a atuação dos agentes e a insistir que Pretti representava uma ameaça, sem apresentar novos elementos factuais.
Trump culpou os dirigentes democratas e políticas de “cidades santuário” pelas mortes, exigindo cooperação total com o ICE, acesso a dados eleitorais e sociais de cidadãos e o fim de proteções estaduais. As autoridades do Minnesota rejeitaram as exigências, classificando-as como coercivas e ilegais.
Investigação independente?Agentes federais impediram repetidamente o acesso da polícia estadual e do gabinete de investigação criminal do Minnesota à cena do crime, mesmo após a emissão de mandados judiciais. Um tribunal ordenou entretanto que as autoridades federais preservem todas as provas, depois do Estado e do condado avançarem com uma ação judicial para impedir a destruição ou adulteração de evidências.
A investigação oficial ficará a cargo do Departamento de Segurança Interna, com apoio do FBI, as mesmas entidades cujos dirigentes já defenderam publicamente os agentes envolvidos, levantando dúvidas sobre a independência do processo.
Preocupações constitucionais.Importa lembrar que pouco antes desta segunda morte, soube-se que uma supervisora do FBI em Minneapolis, Tracee Mergen, se demitiu após ter tentado, sem sucesso, investigar o agente do ICE que matou a tiro Renee Nicole Good. Segundo o New York Times e a NBC News,
Tracee Mergen terá sido pressionada por responsáveis em Washington a abandonar a investigação ao agente Jonathan Ross, que alegadamente disparou sobre Good. O Departamento de Justiça da administração Trump afirmou não existir base para uma investigação por violação de direitos civis.
Vozes locais.O governador Tim Walz acusou o governo federal de abuso de poder, uso excessivo da força e tentativa de reescrever acontecimentos amplamente documentados em vídeo. O Minnesota, juntamente com Minneapolis e St. Paul, processou a administração Trump para travar a “Operation Metro Surge”, que levou cerca de 3.000 agentes federais ao Estado, um contingente superior ao das forças policiais locais, alegando detenções arbitrárias, operações em escolas e igrejas, uso de gás pimenta contra civis e violações sistemáticas da Constituição.
Empresas sediadas no Minnesota, incluindo 3M, Best Buy e Target, assinaram uma carta aberta a pedir uma redução imediata da tensão e cooperação entre autoridades locais e federais.
Vozes nacionais.Antigos presidentes democratas, como Bill Clinton e Barack Obama, classificaram a morte de Pretti como um “alerta” e um teste decisivo aos valores democráticos dos Estados Unidos.
Momento de ruptura nacional?A insistência da administração em negar factos visíveis em gravações amplamente difundidas, bem como a rápida demonização das vítimas, está a alimentar preocupações sobre o estado de direito, a responsabilização das forças federais e os limites do poder executivo.
A vida de um americano vale mais do que a de um imigrante?Por mais que possamos suspeitar, não sabemos que vidas valem mais para os agentes do ICE e para a administração Trump. Mas do ponto de vista nacional e do desencadear de protestos, a morte de dois americanos brancos ou a detenção de uma criança de cinco anos é, no mínimo, negar o princípio da operação que alegadamente pretende apenas ir atrás de imigrantes ilegais e perigosos.