De um lado estão André Ventura, deputados e simpatizantes do partido, empenhados em acabar com a mama: a mama do Estado, a mama das subve nções, a mama dos subsídios, a mama dos políticos que vivem à custa do contribuinte.
É uma guerra contra tudo o que o Estado dá, paga ou sustenta.
Do outro lado temos Íris Ascensão, deputada municipal do Chega na Chamusca, conhecida pela sua atividade no OnlyFans e que recentemente revelou ter realizado um sonho ao recorrer a cirurgia esté tica.
É uma escolha pessoal que acrescenta uma variável curiosa à equação ideológica do partido.
É que, enquanto Ventura quer acabar com a mama dos outros, Íris resolveu fazer precisamente o contrário com as dela.
Finalmente, uma divergência programática que se pode ver à distância.
Curiosamente, alguns dos que querem acabar com a mama dos outros descobriram na política uma forma bastante confortável de mamar. Para o Chega, há duas espécies de mama: a mama dos outros, que é parasitismo, e a própria, que, quando chega através da política, se chama vencimento.
A equação fica ainda mais complexa quando entram as Mulheres Conservadoras, movimento próximo do universo do Chega, com várias deputadas do partido, que defendem os bons costumes, a família e os valores tradicionais.
Rute Sousa, embaixadora do movimento, foi à televisão, à noite, quando uma conservadora das antigas estaria em casa tratar do seu rancho de filhos, dizer que é contra o aborto “em toda e qualquer circunstância, mesmo em caso de viol ação”.
Aqui, a liberdade de escolha já traz nota de rodapé: uma mulher pode escolher ficar em casa, trabalhar, empreender, expor e monetizar a própria imagem. Mas, se a escolha envolver uma gravidez, mesmo resultante de uma violação, há escolhas que deixam de ser propriamente escolhas.
É a liberdade individual com termos e condições.
As Mulheres Conservadoras são, aliás, uma espécie de ala ideológica do ecossistema político do Chega dedicada a garantir que a revolução sexual não se entusiasme demasiado. Família, bons costumes, valores tradicionais, recato e, naturalmente, uma vigilância quase científica sobre o que as outras mulheres fazem com a própria vida. É uma espécie de departamento de controlo de qualidade da moral alheia, reunido à volta de um bule de chá.
O curioso é que, enquanto as Mulheres Conservadoras discutem o que as mulheres devem fazer com a própria vida, a mesma Íris Ascensão parece ter decidido que, nessa matéria, cada uma deve mesmo decidir por si.
E aqui está uma das curiosidades do conservadorismo moderno: a liberdade individual é um valor absoluto, pelo menos enquanto não entrar em conflito com o que alguém entende que as outras mulheres devem fazer.
Isto não é um partido. É uma coligação de posições diferentes sobre a mama.
É que esta é, talvez, a verdadeira riqueza ideológica do Chega: conseguem estar, simultaneamente, contra quem mama e a favor da autonomia individual, entre o recato e o OnlyFans, entre os valores tradicionais e a liberdade de cada um.
Tudo isto sem aparentemente existir qualquer contradição.
O Chega não é de esquerda nem de direita. É de geometria variável. A geometria muda conforme o que estiver em discussão.
Se for o Estado, é para acabar. Se for uma escolha individual, é para respeitar. Se for uma gravidez, há quem ache que a escolha já não é bem individual.
A diversidade ideológica é linda.
Sobretudo quando conseguimos ter, no mesmo partido, uma guerra contra a mama e uma defesa da liberdade de cada um decidir o que fazer com a própria mama.
