No domingo de Páscoa, enquanto o país partilhava amêndoas e recolhia compassos, André Ventura decidiu oferecer-nos uma revelação em alta definição: uma foto sua, recolhido numa igreja, em aparente veneração profunda. Ajoelhado, sozinho, cabeça baixa e, como que por milagre, com um fotógrafo no sítio certo, à hora certa, com a luz da santidade (e da câmara) bem afinada.
A legenda: “Sem Ele não somos nada… Até ao fim!” Até ao fim do quê? Da pose? Do enquadramento? Ou da capacidade de transformar fé em espetáculo?
A luz atravessa os vitrais como num palco bem montado. Uma igreja vazia, certamente em silêncio. Muito silêncio. O silêncio perfeito… até ao clique. E nesse instante nasce o halo. Não o dos santos, mas o do flash. Redondo, preciso, oportuno.
A oração dura o tempo da fotografia; a devoção, o tempo da publicação. Fé bem iluminada, cuidadosamente editada, com brilho no “amor ao próximo” e contraste forte no “nós contra os outros”.
Nos Evangelhos, há figuras que se reconhecem pelo gesto: o publicano baixa os olhos; o fariseu gosta de ser visto. Aqui temos a versão atualizada: o fariseu com fotógrafo. Reza-se a Deus, mas também ao público.
“Até ao fim!” Sim, até ao fim da encenação, até ao fim da audiência, até ao fim do espetáculo. Porque a Ressurreição, ao que parece, também dá visibilidade… e reações.
Depois, muda a cena. O resto do ano vem sem vitrais, mas com barulho. O silêncio da igreja transforma-se em berros bem audíveis. O dedo aponta com precisão: imigrantes, ciganos, estrangeiros. Os alvos habituais. O amor ao próximo existe, mas tem lista de convidados. Quem não está nela, fica fora do enquadramento.
É aqui que a parábola ganha nova forma: não é o fariseu que reza em público. É o fariseu que posa para a fotografia. Não é o templo que amplifica a fé. É a imagem que amplifica a pose.
E depois há a teologia do dedo. Não o dedo que procura compreender, mas o dedo que acusa. A fé ilumina uns, escurece outros. Um filtro seletivo, claro, porque o próximo, afinal, tem critérios de seleção.
“Sem Ele não somos nada.” Talvez. Mas quando Ele serve apenas de cenário, de adereço de domingo, de legenda inspiradora, passamos a valer pouco mais que a fotografia. Uma santidade superficial, bem iluminada, mas vazia de substância.
“Até ao fim!” Até que a câmara desliga. Que o halo desaparece. Ficam as reações, os comentários, as partilhas. E fica a pergunta: quando a fé se vive com fotógrafo, quem está realmente a ver? Deus, talvez. O público, de certeza. O próximo? Esse continua fora do enquadramento.
Amém. Com flash.