Fomos recentemente surpreendidos com algumas informações divulgadas pelo Diario Do Sul (e também num jornal nacional) que relatavam a retirada do espólio do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo em Évora, de uma pintura de Peter Brueghel ("Festa de Casamento", 1620), um óleo sobre madeira de carvalho, avaliado em cinco milhões de euros. Esta obra de arte apresenta uma fissura, que levou o seu proprietário (Novo Banco) a retirá-lo do Museu de Évora.
Esta é uma obra de referência a nível europeu e, ao ser recolhido do "nosso" Museu Nacional, devido a problemas de conservação, é uma perda cultural para a nossa Cidade e para o Alentejo.
Acresce, ainda, que possuímos evidências da existência de outros sinais de graves degradações, detetadas nos últimos meses, em pinturas sobre madeira e que, sendo mais graves que a obra agora retirada do Museu de Évora, continuam sem ter, aparentemente, qualquer resposta tecnicamente válida.
Évora é candidata a Cidade Europeia da Cultura (CEC2027) e, nenhum de nós, se pode alhear de problemas graves como este. É fundamental, por maioria de razão nesta fase da candidatura a CEC2027, valorizar e promover a vida e o património cultural da Cidade e do Concelho.
Considerámos, assim, colocar esta grave situação na última reunião da Câmara Municipal de Évora recomendando que, com carácter de urgência, seja analisado o problema juntamente com a Senhora Diretora do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo , com a nossa indicação para ser assumida uma postura totalmente colaborativa, face à aparente gravidade dos factos tornados públicos.
O Museu de Évora deverá, certamente, possuir relatórios acerca do estado de conservação das coleções à sua guarda, documentos fundamentais para avaliar a emergência deste problema, que se vem atribuindo publicamente a uma avaria no ar condicionado (AC). Temos sérias dúvidas sobre esta justificação pois a arte nos séculos XVII e seguintes não estaria dependente de sistemas de AC, mas sim de métodos e cuidados de estabilização da temperatura e humidade em valores o mais adequados possível.
Nestes termos e de acordo com a informação possuímos até ao momento, entendemos por bem recomendar que a Câmara Municipal de Évora contacte, com carácter de urgência, a Senhora Diretora do Museu de Évora e, com base nesse contacto, seja produzida pelos serviços municipais competentes uma informação com o objetivo de produzir uma avaliação tecnicamente informada, acerca deste grave problema.
A nossa Autarquia deverá igualmente exercer uma forte pressão junto das entidades competentes para a resolução imediata deste problema, nos termos e com os recursos que forem tecnicamente considerados mais adequados, com o objetivo de preservar este importantíssimo espólio cultural que se encontra à guarda de Évora e, concretamente, sob responsabilidade do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo.
Consideramos igualmente que a Câmara Municipal de Évora deve imediatamente assumir uma postura mais ativa em matérias relacionadas com os ativos culturais (materiais e imateriais) e patrimoniais da Cidade e do Concelho, com o objetivo de evitar estados de degradação e/ou preservação que se verificam em inúmeras situações e que empobrecem a nossa vida cultural.
Defendemos, nesta e noutras áreas, um verdadeiro "trabalho em equipa" pois, só assim, conseguiremos atingir objetivos verdadeiramente importantes para a vida das pessoas.
Em concreto, a concretização da presente recomendação deve, portanto, implicar o envolvimento de todos no sentido da deteção atempada deste tipo de problemas, sua denúncia e colaboração no encontro de soluções: a Câmara Municipal de Évora, outras entidades tutelares, responsáveis e proprietárias de património edificado e cultural do nosso Concelho, Direção Regional de Cultura do Alentejo, Universidade de Évora, Associações de defesa do património de Évora e do concelho, outras personalidades com competências na área e todos os Eborenses interessados.
Neste contexto, é igualmente fundamental que a Comissão Municipal de Arte, Arqueologia e Defesa do Património de Évora reate imediatamente os seus trabalhos de forma muito mais efetiva, assumindo uma periodicidade adequada e ordens de trabalho efetivamente relevantes para a vida cultural e de gestão património do Concelho. No último mandato autárquico esta comissão reuniu 4 vezes, quando no mandato anterior tinha um regimento que indicava uma periodicidade mensal (48 reuniões por mandato autárquico).
Enquanto autarca estarei sempre disponível para construir pontes, sem nunca deixar de respeitar o mandato popular que recebi. Atuarei com lealdade institucional, mas sempre atento, assertivo e intransigente na defesa dos interesses de todos os Eborenses.
Nunca vergarei perante populismos, oportunismos, ataques pessoais ou outras formas que sempre justificam a expressão "na política não pode valer tudo"!
É com esse conjunto de objetivos cívicos e políticos que passarei a ser responsável por esta coluna de opinião, a qual nunca se dedicará a "tricas e intrigas", mas sim à defesa dos ideais que queremos para Évora e para os Eborenses.
O que nos move é e sempre será a valorização de Évora!
José Calixto / Diário do Sul