
A escalada de tensões políticas em conflitos completamente formados é, quase sempre, um exercício de futurologia, mas é possível calcular, como foi palpável antes da invasão da Ucrânia à Rússia, quando poderão eclodir ou subir de tom.
É possível, assim, apontar pelo menos quais serão os 'pontos quentes' de conflito, sedo que, à partida, Ucrânia e Rússia continuarão a ser protagonistas de um dos grandes conflitos que marcarão este ano.
Rússia e Ucrânia
Foi o conflito que marcou inegavelmente 2022 e continuará a ser determinante no novo ano. As negociações de paz já estiveram mais perto e mais longe, com avanços e recuos de parte a parte, mas não parece que tenha fim à vista, pelo menos nos próximos meses.
Segundo o El Mundo, há ainda risco de que escale o conflito em termos de violência e se alargue para além da Ucrânia, como por diversas vezes o Ocidente temeu ao longo de 2022. Com os avanços da Ucrânia, as frentes de combate têm estabilizado e especialistas apontam que Putin poderá aproveitar esta 'calma' como janela de oportunidade para uma grande ofensiva.
Para além disto, a mobilização parcial decretada pelo presidente russo significa que ainda haverá cerca de 150 mil soldados 'frescos', a receber formação, e que estarão prontos para encabeçar uma nova ofensiva já a partir da primavera. Também se pode colocar a hipótese de Putin 'arrastar' a aliada Bielorrússia para o conflito, ou de perder as estribeiras e usar uma arma nuclear tática, uma possibilidade que é a mais improvável.
Israel e Irão
A crise entre Israel e o Irão também tem no centro da questão o problema nuclear, depois de falharem as negociações em Viena para reativar o acordo de congelamento do programa nuclear de Teerão. O 'vazio' deixado permitiu recuperar o tempo perdido para desenvolvimento de uma arma atómica.
O regresso de Benjamin Netanyahu ao poder significa que Israel tem uma figura disposta a agir unilateralmente para travar o Irão. Uma solução com bombardeiros aéreos seria dificultada já que a infraestrutura atómica iraniana é subterrânea. Ao mesmo tempo, as relações diplomáticas reforçadas entre Jerusalém, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, poderão dar pontos de apoio estratégicos a Israel.
China e questão das fronteiras
A tensão com Taiwan continuará na China, mas o governo comunista de Xi Jinping pensará duas vezes antes de um eventual ataque ou anexação da ilha, isto depois de ter visto a reação internacional à invasão russa à Ucrânia, e numa altura em que o país enfrenta uma gravíssima crise sanitária, com uma enorme onda de Covid-19.
Ainda assim, a China deverá continuar o clima de hostilidades com Taiwan, mas outras tensões poderão surgir nas fronteiras, por exemplo com a Índia. Os dois países disputam a propriedade de territórios nos Himalaias, a situação agravou-se com o reforço da aliança chinesa com o Paquistão. Todos os envolvidos no problema têm armas nucleares, pelo que a preocupação internacional também estará focada neste eixo.
Coreia do Norte com cada vez mais exercícios militares e mísseis
Se por um lado a Coreia do Norte, ao longo do ano passado, bateu recordes de testes de lançamento de mísseis balísticos intercontinentais, e conta com um arsenal de 40 ogivas, por outro perdeu alguma relevância devido à decisão da Coreia do Sul e aliados norte-americanos de não cederem às ameaças e viverem em permanente paz armada.
Dois fatores poderão mudar a situação: fome na Coreia do Norte e paranoia. As sanções e insuficiência do regime comunista de Pyongyang põem a economia à beira do colapso, ao mesmo tempo que será expectável que continue a levar a cabo mais testes com misseis e até ensaios nucleares, no que poderia ser uma demonstração de força para aliviar as sanções internacionais aplicadas ao país.
Argélia e Marrocos
Os dois vizinhos do norte de África poderão ver uma escalada na rivalidade ao longo de 2023. As tensões agravaram-se com a ocupação ilegal do oeste do Sahara e o apoio da Argélia à guerrilha de Sahawari, na frente de Polisário.
No fim de 2020, Polisário quebrou o cessar-fogo mantido com Marrocos, ao mesmo tempo que Trump, então presidente dos EUA, reconheceu a soberania marroquina do oeste do Sahara, em troca de Rabat restabelecer relações diplomáticas com Israel.
Logo depois a Argélia respondeu, cortando ligações com Marrocos e suspendendo exportações de gás para a Europa a partir daquele território.
Entretanto, os dois países têm protagonizado uma corrida às armas sem precedentes na história dos dois territórios, com Marrocos apoiado pelos EUA e Israel, e a Argélia com apoio da Rússia e Irão.