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27 setembro, 2021

PATRIMÓNIO MUNICIPAL E IMOBILISMO

Por Francisco Bilou
Historiador de Arte

Num tempo em que tudo está sujeito a rigoroso escrutínio do "politicamente correto", quase sempre acantonado no sectarismo ideológico (partidário ou outro), é salutar olhar para os problemas comuns partindo de um pressuposto básico de equilíbrio: os valores patrimoniais que herdámos devem coabitar harmoniosamente com aqueles que lhe acrescentamos; uns e outros são, afinal, a soma da nossa identidade cultural.

Vem isto a propósito de uma certa ideia de defesa do património em que o cerco "sanitário" à sua proteção impede, muitas vezes intencionalmente, de se lhe dar qualquer utilidade cultural, social, ou até económica, resultando daqui o melhor convite ao imobilismo. Um caso notório é o amuralhado medieval da nossa cidade, que como se sabe marca o limite físico da área urbana classificada pela Unesco.

Com efeito, falar hoje da recuperação da muralha medieval de Évora e da forma de a resgatar para usufruto público é tema a evitar para quem prefere o conforto do imobilismo. Mas importará recordar que a muralha medieval, construída de um fôlego em meados do século XIV (embora com adições e reparos posteriores), foi o primeiro grande "plano de urbanização" da cidade. Aliás, tão avisado quanto eficaz, pois que sobreviveu praticamente íntegro até à entrada do século XX. Tão extenso é esse perímetro (c. de 4 km) que ao ser concluído só a muralha de Lisboa o suplantava. Ou seja, perto de 1355, depois da devastadora Peste Negra (1348) – motivo que pode explicar a rapidez da obra, também como defesa sanitária –, Évora saiu dessa crise pandémica e demográfica para se projetar no futuro, circunscrevendo e defendendo uma área de expansão urbana que prevaleceu funcional mais de seis séculos.

Acresce saber que a muralha revela singularidades pioneiras na arquitetura militar do país, antecedendo, em alguns aspetos construtivos, a fortificação moderna: o uso da reprega para tiro flanqueado (o típico dente-de-serra que se observa na face norte) e até a marcação de proto-baluartes avançados em relação à linha da muralha), tudo sinais de um ensaio muito precoce de "modernidade" sem paralelos no nosso país.

Não se percebe, pois, o virar de costas da cidade à sua muralha medieval, deixando-a  em troços muito significativos encoberta por excrescências e ruínas sem qualquer préstimo público ou, tendo-o, de muito pouca dignidade.

Um exemplo é o degradante aspeto do troço entre as portas de Avis e Lagoa (julgo que à espera do tal "projeto" redentor que, de mirífico, nunca chegará). Outro, ainda, é a área onde parqueiam, e já há muito tempo, os camiões municipais da recolha de lixo, bem como todo o restante troço de muralha até ao Hospital Distrital. Só o imobilismo dos decisores municipais pode explicar a razão por que nunca foi tentada a requalificação destes troços de muralha, até como sinal de boa prática patrimonial que se exige a uma cidade classificada.

É ainda o mesmo imobilismo que explica a razão por que se deixou degradar, quase à vergonha, a torrinha que coroa o pilar do Aqueduto à passagem da estrada de Arraiolos, cansados que estamos de escrever e afirmar publicamente que aquele elemento é a derradeira manifestação da arte manuelina em Portugal sob iniciativa régia. Perdemos o conto às vezes que já fizemos a pergunta: custará muito ao município uma manhã de trabalho a retirar o pinheiro e toda a vegetação evasiva que aí nasceu nos últimos anos? Não é para que fique "bonito", mas apenas para conter a degradação de um elemento artístico da mais alta relevância para a história da Arte portuguesa.

Porque em ambos os casos se trata de património municipal (e já nem falo das "ruínas das Ruínas Fingidas" e doutros casos avulsos por toda a cidade), termino com uma pergunta à vereação que emanar do próximo voto popular: não será possível olhar o património de maneira menos imobilista e, já agora, respeitando a legislação e ouvindo os parceiros da área, devolver a Évora as suas velhas muralhas medievais como forma de honrar a história da cidade em benefício público dos seus habitantes?