Os bandidos
1.
Estas sete pessoas na fotografia foram humilhadas por André Ventura num debate televisivo com o Presidente da República.
O país lembra-se.
A meio do debate o candidato do Chega tirou uma fotografia e perguntou a Marcelo Rebelo de Sousa se não tinha vergonha por ter estado com aquela "bandidagem". Se não tinha vergonha de estar com pessoas que não eram de bem, com gente que veio para Portugal para viver à conta do Estado Social.
2.
André Ventura não sabia quem eram aquelas pessoas.
Podem ter-lhe soprado uma coisa ao ouvido, mas não fazia a mais pequena ideia de quem eram.
Mas tanto se lhe deu.
Ele achava que fazendo o que fez ganharia votos.
E ele faz tudo o que acha que lhe pode dar votos – não lhe interessa se aquelas pessoas se sentem humilhadas, envergonhadas ou estigmatizadas.
Ele fê-lo como os racistas fazem quando gritam na rua "preto, vai para a tua terra".
Ele mostrou aquela fotografia porque aquela família era uma família de pretos. E além da cor da pele eram pobres, viviam num bairro de lata, num gueto.
Ele não sabia quem eram aquelas pessoas – provavelmente nem as considera pessoas –, ele não sabia se eram primos, filhos, amigos ou enteados. Se trabalhavam ou eram desempregados, se passavam por dificuldades ou se tinham sonhos.
Igual ao litro.
A ele nem sequer lhe ocorreu que naquela fotografia está uma criança de colo, uma criança de três anos, filho de Higina e a quem a mãe quis muito chamar James por causa do sonho do basquetebol.
Uma criança que para ele não é uma criança.
É um bandido.
Faz parte da bandidagem.
E se não cometeu algum crime acabará por fazê-lo porque lhes está entranhada a maldade. O pequeno James também não é um português de bem, para ele é um preto num gueto.
(para os nazis uma criança judia não era uma criança, era apenas um judeu).
3.
Ele não sabe que o pai, o senhor que está orgulhoso com o Presidente da República, se chama Fernando Coxi, tem 65 anos e uma vida de trabalho e sofrimento compensada pelo menino dos seus olhos, o neto James.
E não sabe que a sua mulher é dez anos mais nova, uma mulher por quem se apaixonou há muitos anos, a dona Julieta.
Ele não sabe o nome dos filhos.
Mas eu deixo-os aqui.
Aurora, 30 anos.
Higina, 27 anos.
Hortêncio, 33 anos.
Temos ainda uma rapariga, a Vanusa, grávida de um bebé que certamente já nasceu, o filho de Hortêncio.
Nesta fotografia não estão para ele sete bandidos, estão oito.
O bebé na barriga é um bandido como os outros.
4.
Da família Coxi, os sete da fotografia, quatro têm a nacionalidade portuguesa. E três têm nacionalidade angolana, mas podem requerer ser portugueses pois vivem cá desde 2007.
Daqueles sete só dois são subsidiados pelo Estado – Aurora que ficou desempregada por causa da pandemia recebe RSI e Vanusa recebe uma compensação por invalidez temporária (espera por uma operação desde 2018).
Quanto aos crimes que foram falados por André Ventura, crimes que imputou a toda a família, só existem dois para contar. Hortêncio foi apanhado a vender marijuana, em 2017. E conduziu embriagado em 2019. Foram considerados crimes leves e nunca chegou a ser preso.
No dia em que foi apanhado a vender erva no bairro o senhor Fernando chorou à frente dos vizinhos. E abraçado pelos filhos, e irmãos de Hortêncio, voltou para casa envergonhado, triste e sem saber qual seria o seu futuro.
Ver o Presidente da República a abraçar o seu rapaz problemático fez com que aquele dia tenha sido o mais feliz da sua vida.
5.
A família Coxi foi contactada por uma advogada.
Uma mulher, Leonor Caldeira, telefonou-lhe e colocou os seus serviços à disposição da família. Não tinham de pagar nada.
E o senhor Fernando, depois de pensar, depois de falar com Julieta, decidiu avançar por causa do pequeno neto e de todos os netos e bisnetos que ele não conhecerá.
Entrou a 13 de abril, no Juízo Cível de Lisboa uma ação "por ofensas diretas e ilícitas cometidas contra o direito à honra".
E sabem o que eles pedem?
Apenas um pedido de desculpas.
Apenas que Ventura lhes peça desculpa por ter tratado aqueles seres humanos como animais.
LO